Uma partida no sistema russo

junho 2, 2009
O nosso sistema de damas de 64 casas segue as regras internacionais para as damas de 100 casas e que difere do
sistema russo em dois pequenos ítens: primeiro – Na Rússia não existe a obrigatoriedade de se tomar o maior número
de peças. Assim, em 1. c3-b4 b6-c5  2. b2-c3 f6-g5 3. c3-d4 g5-h4  4. d4:b6, o russo prefere jogar 4. … a7:c5 e
não 4. … c7:c3. Já vi mais de um jogador perder uma partida em torneio por ter seguido uma partida vista em livros
russos. Lá, pelo meio da partida vem a troca decisiva, o russo faz a opção que lhe convém, aqui é obrigatório tomar
pela maior quantidade e a vaca vai pro brejo.
Pelas nossas regras é preciso que a peça pare na última linha para ser coroada dama. Se ela passa por essa linha
numa ação de múltiplas tomadas, continua como peça simples. Na Rússia há o que chamamos de dama voadora. Se a peça
vai à última linha numa ação de tomada ela já é coroada dama e pode capturar uma peça à distância em sua diagonal,
se for o caso.
A partida ora apresentada não tem valor técnico para nós já que nem os programas de computador aceitam reproduzir o
lance da dama voadora. Vale entretanto pela combinação que resultou no lance decisivo e pela curiosidade desse poder
de dama. O encontro deu-se entre o conceituado mestre Romanov, da Latvia, e o representante do Azerbaidjão,
candidato a mestre, Sharapov, jogando com as pretas. Fonte: Sharmati v SSSR (Xadrez na Rússia), março de 1960.
1. e3-d4 f6-g5  2. g3-h4 d6-c5  3. h4:f6 c5:e3  4. f2:d4 e7:g5
5. a3-b4 g5-h4  6. e1-f2 h6-g5  7. h2-g3 b6-a5
As pretas abrem mão do centro com vistas a fazer um cêrco mais à frente.
8. b4-c5 g7-h6  9. b2-a3 f8-e7  10. a3-b4 c7-b6?
Lance fraco, as pretas correm o risco de perder. Melhor seria 10. … cd6  11. de3 hg7  12. gf4 gf6!
11. d2-e3 d8-c7  12. g3-f4 c7-d6  13. c1-b2 b8-c7
Agora as brancas finalizam com uma refinada combinação.
14. f2-g3! h4:f2  15. f4-e5! d6:d2  16. c3:g3 a5:e5
17. g3-h4 b6:d4  18. h4:f2 e as pretas abandonam.
Os breves comentários entre os lances da partida são de autoria de Tsirik, que eu não tenho como saber se é o mesmo
Tsirik, autor do livro Finais de Damas (Shashki Endshipili).

O nosso sistema de damas de 64 casas segue as regras internacionais para as damas de 100 casas e que difere do sistema russo em dois pequenos ítens: primeiro – Na Rússia não existe a obrigatoriedade de se tomar o maior número de peças. Assim, em 1. c3-b4 b6-c5  2. b2-c3 f6-g5 3. c3-d4 g5-h4  4. d4:b6, o russo prefere jogar 4. … a7:c5 e não 4. … c7:c3. Já vi mais de um jogador perder uma partida em torneio por ter seguido uma partida vista em livros russos. Lá, pelo meio da partida vem a troca decisiva, o russo faz a opção que lhe convém, aqui é obrigatório tomar pela maior quantidade e a vaca vai pro brejo.

Pelas nossas regras é preciso que a peça pare na última linha para ser coroada dama. Se ela passa por essa linha numa ação de múltiplas tomadas, continua como peça simples. Na Rússia há o que chamamos de dama voadora. Se a peça vai à última linha numa ação de tomada ela já é coroada dama e pode capturar uma peça à distância em sua diagonal, se for o caso.

A partida ora apresentada não tem valor técnico para nós já que nem os programas de computador aceitam reproduzir o lance da dama voadora. Vale entretanto pela combinação que resultou no lance decisivo e pela curiosidade desse poder de dama. O encontro deu-se entre o conceituado mestre Romanov, da Latvia, e o representante do Azerbaidjão, candidato a mestre, Sharapov, jogando com as pretas.

Fonte: Sharmati v SSSR (Xadrez na Rússia), março de 1960.

1. e3-d4 f6-g5  2. g3-h4 d6-c5  3. h4:f6 c5:e3  4. f2:d4 e7:g5

5. a3-b4 g5-h4  6. e1-f2 h6-g5  7. h2-g3 b6-a5

As pretas abrem mão do centro com vistas a fazer um cerco mais à frente.

8. b4-c5 g7-h6  9. b2-a3 f8-e7  10. a3-b4 c7-b6?

Lance fraco, as pretas correm o risco de perder. Melhor seria 10. … cd6  11. de3 hg7  12. gf4 gf6!

11. d2-e3 d8-c7  12. g3-f4 c7-d6  13. c1-b2 b8-c7

Posição

Agora as brancas finalizam com uma refinada combinação

14. f2-g3! h4:f2  15. f4-e5! d6:d2  16. c3:g3 a5:e5

17. g3-h4 b6:d4  18. h4:f2 e as pretas abandonam.

Os breves comentários entre os lances da partida são de autoria de Tsirik, que eu não tenho como saber se é o mesmo Tsirik, autor do livro Finais de Damas (Shashki Endshipili).

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Virgulino M. Dias

maio 21, 2009

What if my opponent doesn’t follow the book? Esse era um dos capítulos de um livro de xadrez que comprei certa vez e que não pretendia ensinar a prever cinco ou dez lances a frente mas mostrar simplesmente o melhor lance. Segundo o livro, o célebre cubano Raul Capablanca, campeão mundial mais de uma vez, ganhava porque fazia sempre o melhor lance.

E se o adversário não segue o livro? Problema dele. Nesses jogos de tabuleiro – xadrez, damas -, chora menos quem sabe mais. E quem não segue o livro tem muito mais motivos para chorar. Na partida que apresentamos a troca em f6-e5 não foi boa. O ataque à peça branca em f4, pior ainda. Leva à derrota. A partida aconteceu num Campeonato Iguaçuano, no Estado do Rio, não anotei a data, provavelmente 1965 ou 1966. Joguei com as brancas e Virgulino M. Dias com as pretas.

1. c3-d4 f6-e5 lance completamente irregular. 2. d4:f6 g7:e5

3. e3-f4 h8-g7 4. a3-b4 g7-f6 já pensando em atacar a peça em f4. A essa altura eu já sabia que se isso fosse feito eu ganharia a partida.

5. b4-a5 f6-g5? 6. g3-h4 e5:g3 7. h4:f6 e7:g5 8. f2:f6 f8-e7

9. h2-g3 e7:g5 10. g3-h4 g5-f4 11. h4-g5 f4-e3 12. d2:f4 d6-e5

13. f4:d6 c7:e5 14. a5:c7 h6:f4 15. e1-f2! b8:6 16. c1-d2! a7-b6

17. f2-e3 d8-e7 a peça preta em f4 está condenada

18. e3:g5 b6-c5 19. b2-c3 e7-f6 20. g5:e7 d6:f8 21. d2-e3 e as pretas abandonam.


Abertura Irregular

fevereiro 4, 2009

безымянная партия (bezimiánaia partiia – partida sem nome -, como está no livro Damas no Ano de 1956, publicação russa, mas que costumamos chamar de Abertura Irregular. As partidas apresentadas nesse livro são profusamente comentadas mas, a partir do momento em que não falo russo, apenas conheço o alfabeto cirílico, traduzir seria um trabalho insano.

Todo damista do meu tempo possuía algum livro ou revista de damas em russo. Não havia problema algum em reproduzir os lances porque eles eram anotados com os caracteres latinos. Existem convenções universais e uma delas é o fato de que qualquer partitura de música traz os movimentos em italiano – presto, allegro, maestoso, adagio, etc. -, quer seja editada em chinês, coreano ou grego.

Vamos acompanhar, então, P. Popov contra B. Rosenfeld:

1. c3-b4 b6-c5  2. g3-h4 f6-e5  3. h4-g5 h6:f4  4. e3:g5 g7-h6

O raciocínio agora é o plano das peças pretas para desenvolver seu lado esquerdo e, consequentemente, enfraquecer esse lado oposto do adversário.

5.  f2-e3 h6:f4  6. e3:g5 h8-g7  7. g5-h6 e5-f4  8. b2-c3 g7-f6
9. b4-a5 c5-b4  10. a3:c5 d6:b4  11. c3-d4 b4-a3  12. e1-f2 f6-g5
13. f4:h2 h6:f4  14. h6:f4 e7-f6  15. a1-b2 f8-g7
16. f2-g3! d8-e7  17. g3-h4 g7-h6  18. d4-c5 c7-b6?
19. a5:c7 b8:b4  20. b2-c3 e7-d6  21. c3:a5 f6-e5
22. d2-c3 e5:g3  23. h4:f2 h6-g5  24. f2-e3 g5-h4
25. e3-d4 h4-g3  26. d4-e5! d6:f4  27. c3-d4

 e as pretas abandonam.


No jogo de damas também há “escrita”!

abril 17, 2008

No jogo de damas, assim como no futebol, também existe “escrita”. Na partida deste post jogo contra o Valdo Brito, campeão do Torneio Geraldino Izidoro com certa folga. Quando o conheci eu era um “patinho” autêntico, perdia todas contra ele. Ele nunca se furtou a me dar experiência, sempre jogava comigo. Até que consegui empatar algumas partidas, mas jamais ganhei. Nessa eu poderia ter ganho, mas houve um erro de avaliação. O Valdo Brito tinha muito talento e poderia ter chegado a campeão carioca ou algo mais caso se dedicasse mais ao esporte. Joguei também uma partida com o Valdo no torneio referido acima. Também terminou empatada e será publicada mais à frente.
Embora não tenha anotado a data em que foi jogada a partida, há duas anotações estranhas, uma no início da partida – 8:16 – e outra ao final – 10:16. Terá durado 2 horas o entrevero?

1. g3-f4 f6-c5  2. c3-d4 f6-e5  3. d4xb6 e5xg3  4. f2xh4 a7xc5 
5. b2-c3 g7-f6 6. c3-b4 f8-g7  7. h2-g3 f6-g5  8. h4xf6 g7xe5
9. e3-f4 h8-g7  10.  a1-b2 e7-f6  11. g1-h2 c5-d4  12. d2-c3 f6-g5
13. e1-d2 g5xe3  14. d2xf4 b8-a7  15. b4-c5???
Aqui o correto seria 15. g3-h4 e5xg3 e 16. h2xf4; para a subsequente defesa com d8-e7 e e7-f6 segue a ameaça c1-d2 e d2-c3.
15. … d6xd2  16. c1xc5 c7-b6  17. f4xd6 b6xd4  18. b2-c3 d4xb2 
19. a3xc1 h6-g5  20. g3-h4 g5-f4 21. c1-d2 a7-b6 

22. d6-c7 g7-f6  23. c7xa5 d8-c7  24. d2-c3 f6-e5
25. c3-b4 e5-d4 26. h2-g3 f4xh2  27. h4-g5 empate.


Simultânea em Mesquita

abril 15, 2008

Ou, quem quer muito traz de casa.

Cinco meses após o torneio relatado no post abaixo houve outra festividade damista na Baixada Fluminense, desta vez no Tênis Clube de Mesquita. O Mestre Geraldino Izidoro novamente esteve participando de uma simultânea. Não me lembro da quantidade de adversários enfrentados por ele nesse dia, mas eram pelo menos uns quinze. Como o simultanista inicia o jogo em todos os tabuleiros ele iniciou com um lance não muito ortodoxo, e3-f4, em todas as partidas. Fui um de seus oponentes.
No futebol existe a máxima “quem não faz leva”. Mas pode não levar, é questão de sorte. No jogo de damas o ditado é um pouco diferente: “quem quer muito traz de casa”, e diz respeito ao fato de que, quando uma partida está tecnicamente empatada, forçar um ganho só faz enfraquecer as posições e o teimoso tem tudo para perder. Foi o que aconteceu na minha partida com o saudoso Izidoro. E o pior é que tive de aguentar gozação. Quando saíamos ele, às gargalhadas, apontando para mim, dizia:
– Esse aí tomou um balão.

Vamos aos lances da partida Izidoro X Lailo

1. ef-f4 f6-e5  2. f2-e3 b6-c5  3.c3-b4  g7-f6  4. b4-a5 e5-d4
5. g3-h4 d4xf2  6. g1xe3 f4-g5  7. h4xf6 e7xg5  8. b2-c3 g5-h4
9. e1-f2 h8-g7  10. a1-b2 f8-e7  11. c3-b4 g7-f6  12. f4-g5 h6xf4
13. e3xg5 f6-e5  14. g5-h6 e7-f6  15. h2-g3 c5-d4  16. b2-c3 d4xb2
17. b4-c5 d6-b4  18. a5xa1 a7-b6  19. d2-e3 b6-c5  20. a1-b2 c7-b6
21. b2-c3 b8-a7  22. c1-b2 d8-c7??  23. a3-b4 e 24. e3-f4, com vitória.