Encontrando os velhos amigos

maio 10, 2008

Hoje liguei para o Zigomar, com um medão danado. Há quase quarenta anos não nos vemos ou falamos e me desagrada muito num reencontro desse tipo ser atendido pela viúva. Felizmente sua voz me transmitiu a mesma vivacidade de outros tempos. Soube então que ele, aos domingos, às 10 da manhã, vai até a praça Nossa Senhora do Amparo, na descida do viaduto de Cascadura, para exercitar a mente no intelectual esporte do jogo de damas. Ele me convidou para uma visita ao local mas infelizmente não posso. Aos domingos só fico livre depois das 14 horas. Quem sabe, quando eu me “aposentar”?

Zigomar foi campeão carioca em 1996, isso eu vi na internet e confirmei com ele hoje. Perguntado sobre a internet ele é de opinião que cavalo velho não aprende truques novos e disse ser a favor do jogo frente a frente, olho no olho.
Sobre o jogo em clima de torneio com a “torcida” assistindo em silêncio às partidas, certa vez presenciei um pequeno diálogo entre dois contendores, se bem que toda conversa inútil deve ser evitada durante as partidas. Era época de muito frio e um jogador dizia para o outro:
– Você está tremendo. Isso tudo é frio?
Ao que o outro, bem humorado, respondeu:
– Não é frio não, é medo mesmo.
E ele realmente perdeu a partida.

Segue uma partida, eu com as brancas, Zigomar com as peças pretas durante um dos campeonatos olindenses de damas.

01. c3-b4 d6-e5  02. b4-a5 b6-c5  03. e3-f4 e7-d6  04. b2-c3 f6-g5
05. c3-d4 e5:c3   06. d2:b4  g5:e3   07. f2:b6 a7:c5   08. a1-b2 f8-e7
09. g3-f4 c5-d4  10. b2-c3  d4:b2  11. b4-c5 d6:b4  12. a5:a1 e7-d6
13. a3-b4 g7-f6  14. a1-b2 f6-g5   15. e1-d2 g5:e3  16. d2:f4 h8-g7
17. b2-a3 c7-b6  18. h2-g3 g7-f6  19. g1-h2 b6-c5  20. c1-d2 d8-e7
21. g3-h4 f6-e5  22. h4-g5 e5:g3   23. h2:f4 c5-d4   24. d2-c3 d4:b2
25. a3:c1 b8-c7  26. c1-b2 c7-b6  27. b2-a3

Só há anotações até o lance 27. Muito provavelmente a partida terminou empatada.
Se houvesse o lance 27. … b6-a5? seguiria:

28. b4-c5 d6:b4  29. a3:c5 e7-d6  30. c5:e7 a5-b4  31. e7-f8 b4-a3
32. g5-f6 a3-b2  33. f8-d6 depois 34. d6-e5 ou d6-e7

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Otávio Calaínho, um líder

maio 4, 2008

Otávio, falecido recentemente, era um jogador mediano mas era extremamente dedicado ao jogo de damas. Certa ocasião  alugou uma pequena sala para guardar material e organizou o Campeonato Olindense de Damas, aqui em Nilópolis. Mandou confeccionar planilhas (foto ao final) e conseguiu reunir um expressivo número de jogadores no mezanino do prédio onde ficava a sala do material (mesas, tabuleiros, documentos, etc). Alguns damistas eram de excelente nível, como o Mário Borges, que já tinha sido campeão carioca, e vinham de diferentes bairros do Rio de Janeiro. As partidas aconteciam aos domingos pela manhã e geralmente as rodadas se encerravam quase às treze horas.
Infelizmente não guardei nenhuma documentação sobre os resultados desses certames, mesmo porque eu tinha começado a trabalhar em turno, inclusive aos domingos. Quando trabalhava de zero às seis voltava cheio de sono, quando pegava das 12 às 18, é lógico que eu precisava sair mais cedo.
Vamos analisar, muito sucintamente, uma partida disputada no dia 20 de dezembro de 1970, eu com as brancas e Cezar Alves da Silva, o vencedor, com as pretas.

01. c3-b4 f6-e5  02. b2-c3 g7-f6  03. b4-a5 b6-c5 
04. c3-b4 f6-g5 
05. a1-b2 e5-d4? 
Um lance de enganosa agressividade porque seguiu
06. e3-f4 g5xe3  07. d2xf4
e as pretas ficaram com a peça em d4 na geladeira do necrotério. Tiveram que continuar com
07. … h6-g5  08. f4xh6 h8-g7  09. g3-f4 g7-f6  10. h2-g3?

Antes do lance 10. h2-g3
Diagrama antes do lance 10. h2-g3?

Aqui o erro é das brancas. Correto seria
10. f2-e3 d4xf2  11. e1xg3 e acho que o ganho de material asseguraria a vitória.
10. … a7-b6  11. g3-h4 f6-g5  12. h4xf6 e7xe3  13. e1-d2 d4-c3!
14. b2xd4 d8-e7  15. d2xf4 a5xg5  16. h6xf4
E nem deixei jogar 16. … d6-c5, fui logo abandonando.

O Cezar vibrou como se fosse gol de Copa do Mundo, depois me pediu desculpas pela euforia, pela estrepitosa comemoração.
A derrota no esporte nunca me deprime, pelo contrário, ao constatar que perdi abro um largo sorriso e cumprimento o adversário. É isso mesmo, Cezar. Quem não faz, leva.

 

 

 

 

 

 

 

 

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