Final de duas pedras contra duas pedras

janeiro 26, 2012

Acho que já contei uma das passagens do damista Hilton, morador de Mesquita, RJ, muito bem humorado e de força mediana no esporte intelectual, mas nunca é demais repetir esse capítulo.

Como dizia, Hilton era um sujeito muito brincalhão. Certa vez apareceu um adversário para uma partida amistosa e ele estava meio atarefado. Pediu paciência à pessoa porque teria que resolver um problema na fábrica.

– Vai resolvendo esse probleminha de duas pedras contra duas pedras que não me demoro.

Armou a posição no tabuleiro e se foi…

Meia hora depois estava de volta.

– Como é, resolveu o problema das duas pedras?

– Difícil, não consegui não…

E rindo gostosamente, entre baforadas do seu inseparável charuto, Hilton arrematou:

– Se você não sabe jogar sozinho com duas pedras, como quer jogar comigo com doze?

O tal probleminha, ou melhor, final de duas pedras contra duas pedras, fazia parte do livro de Waldemar Bakumenko, Jóias do Jogo de Damas, que passamos a transcrever tal como no livro se encontra.

Eis uma posição onde, com tão reduzido material, se demonstra um dos mais importantes princípios do jogo de damas: o valor das casas centrais do tabuleiro.

      1. f4-g5! b8-c7 2. g5-h6! …

Magnífico e único lance para ganho.

      2. … c7-b6

Se 2. … c7-d6 3. c5xe7 a5-b4 4. e7-f8D b4-ce 5. f8-b4  x.

      3. c5xa7 a5-b4 4. a7-b8 b4-c3 5. b8-f4! c3-b2 6. f4-e5!

e as pretas não podem coroar a pedra.


Bogoliubov, a Tablita e o fim dos empates

fevereiro 14, 2011

Nos jogos de tabuleiro as peças brancas sempre começam o jogo. No mundo do xadrez diz-se que há uma pequena vantagem para quem faz o primeiro lance. Não sei se é verídico o que se conta a respeito do folclórico campeão russo Bogoliubov. Ele dizia que quando jogava com as brancas ganhava porque tinha a vantagem do primeiro lance, quando jogava com as peças pretas ganhava porque era Bogoliubov.

No jogo de damas antigamente você ia para o torneio e, se tivesse as peças brancas, sendo o primeiro a jogar, tinha a opção de dar um rumo à partida jogando 1. c3-d4 ou 1. c3-b4 ou ainda as peças em a3, e3 ou g3. Nada que assegurasse alguma vantagem, mas pelo menos levava-se a partida para uma área conhecida. Então o que ocorria? Eram jogadas partidas conhecidas por ambos os oponentes e os dirigentes começaram a reclamar do alto índice de empates.

Na Rússia, em 1980, inventaram a Tablita. “A Tablita foi criada para ser utilizada apenas em eventos de alto nível, onde o nível técnico dos participantes é muito elevado e o volume de empates é muito alto. A Confederação Brasileira de Jogo de Damas adotou como oficial o uso da Tablita nos Campeonatos Brasileiros, pois o nível técnico dos participantes é muito alto e é praticamente impossível que jogadores desse nível percam partidas quando eles podem escolher uma abertura que é totalmente decorada”.

Ou seja, esses mestres podem até perder uma partida ao cair na arapuca da Tablita. Você iniciar a partida com uma peça colocada em a5, no canto, quando todos buscam o centro do tabuleiro, eu acho que já é uma desvantagem. Enfim, manda quem pode, obedece quem não tem alternativa.

No diagrama acima, uma posição ilógica: foi sorteada a posição a3-h4 a7-a3. A branca que estava em a3 vai para h4 e a peça preta que estava em a7 vai para a3. Façam o jogo, senhores. Nem começou e já se tem uma peça preta em a3 tentando arrombar a janela. Francamente, não gosto disso.


Uma partida interessante e instrutiva

janeiro 27, 2011

Tenho uma antiga revista russa de abril de 1963 chamada Шахматы (chármati – xadrez), com as costumeiras duas páginas dedicadas ao jogo de damas. Como se sabe as anotações dos lances são feitas com o alfabeto latino, então não há dificuldade nenhuma, a não ser com os comentários. Palavras como ничья (nítchia – empate), сдались (sdálici – abandonam) e outras poucas, a tradução se depreende na sequência dos lances.

Os comentários são do mestre russo Zinoviy Issaakovtch Tsirik, entre nós conhecido como Tsirik ou Zirik, autor de vários livros, com destaque para “Finais de Damas” e “Damas – Minha Vida”.

Jogam E. Licenko e V. Abaulin, partida reproduzida no software Winbraz.

1. c3-d4 d6-c5   2. b2-c3 e7-d6   3. g3-h4 f8-e7   4. f2-g3 b6-a5
5. d4xb6 a7xc5   6. e3-f4 c5-b4   7. a3xc5 d6xb4   8. e1-f2 c7-d6
9. f2-e3 f6-e5  10. g1-f2! b8-c7  11. h4-g5 c7-b6

Não se pode jogar, claro, 11. … g7-f6 por causa de 12.  a1-b2 e

13. b2-a3 X

12. e3-d4 b6-c5  13. d4xf6 g7xe5  14. f2-e3 d8-c7? (seria melhor 14. … b4-a3)

15. g3-h4 e5xg3  16. h2xf4 h8-g7 17. c1-b2! e7-f6

Se 17. … b4-a3 vem 18. c3-d4 X; para 17. … g7-f6 segue

18. b2-a3 f6-e5 (18. … c7-b6  19. c3-d4 x19. g5-f6 e5xg7

20. c3-d4 c7-b6  21. d2-c3, etc…

18. g5xe7 d6xf8  19. c3-d4 c7-d6  20. d4xb6 a5xc7


21. b2-a3?

A vitória poderia ser alcançada com 21. b2-c3! b4-a3  22. e3-d4! f8-e7

(22. … c7-b6  23. d4-e5 d6-c5 24. e5-d6 e 25. a1-b2 X)

23. d4-c5! d6xb4  24. c3xa5 e7-d6  25. d2-e3 g7-f6  26. e3-d4 X.

21. … f8-e7  22. a3xc5 d6xb4  23. a1-b2 g7-f6  24. b2-a3

Aqui as brancas poderiam jogar 24. e3-d4, após o que não se aplica 24. … b4-a3? por causa de

25. d4-e5! a3xg5  26. e5xg7 h6xf8  27. h4x b6 X.
A seqüência a partir do lance 25 seguiu as regras brasileiras. A regra russa não obriga a tomar o maior número de peças e existe a dama voadora. Assim, aconteceria o seguinte:

25. d4-e5! f6xd4  26. d2-c3 a3xg5  27. h4xe3.

Convém notar que 24. … c7-d6! conduz necessariamente ao empate.

24. … c7-d6  25. a3xc5 d6xb4  26. f4-g5 h6xf4  27. e3xg5, e o jogo terminou empatado.


Uma combinação quase perfeita

julho 27, 2010

 

Numa partida disputada em 1970, no Campeonato Olindense de Damas, apareceu a oportunidade para uma combinação de lances. Não resultou em vitória mas valeu pelo exercício mental. Com as peças brancas Sodário Nogueira, e Luiz Lailo com as pretas.

1. c3-d4 f6-g5  2. b2-c3 g5-h4  3. c3-b4 h6-g5  4. b4-a5 d6-c5?

Esse lance das pretas foi muito fraco.

5. g3-f4 g7-h6  6.d4-e5 h8-g7  7. a1-b2 e7-f6  8. d2-c3 f6:d4
9. c3:e5 f8-e7  10. c1-d2?

Aqui 10. e1-d2 provavelmente ganharia a partida. Para o lance efetuado, viu-se logo a possibilidade de retirar a peça branca em e3. Não foi difícil.

10. … c7-d6  11. e5:c7 b8:d6  12. a5:e5 c5-b4  13. a3:c5 e7-d6
14. c5:e7 d8:d6  15. e3:c5 g5:a3  16. c5-d6 a3-b2  17. d6-c7 b2-a1 
18. c7-b8 a7-b6  19. b8-d6 b6-a5  20. d6-a3 g7-f6  21. a3-f8 a1-b2
22. f8-c5 b2-a1  23. c5-d6 f6-g5  24. d6-f8  …  E neste ponto concordaram com o empate. 
            
Para acompanhar os lances pode-se baixar o software Plus800 clicando-se aqui.  Muitos recomendam o Aurora Borealis, que pode ser testado grátis por apenas 15 dias. Eu tenho a versão Professional.


Duas damas e pedra contra quatro pedras

julho 21, 2009

Final de jogo, as cartas estão na mesa, cabe a você tomar as decisões, gastando o tempo que for necessário.

Na literatura do jogo de damas existem os finais e os problemas. Sempre jogam as brancas. Nos problemas os lances das peças pretas são obrigatórios, sempre executando uma captura forçada pelas brancas e que leva a uma vitória das mesmas. Na final nem sempre há lances obrigatórios. Devemos jogar por ambos os lados fazendo os lances das pretas os mais corretos possíveis a fim de prolongar a duração da partida. A derrota é iminente mas as pretas devem lutar.

Peças brancas: b8Dama, c1Dama, d2
Peças pretas: a7, h2, h6, h8

1. d2-e3 h8-g7

Se 1. … h2-g1D 2. b8-h2 e 2. g1:d4 3. c1-g5 com ganho.

2. c1-d2! h1-g1D

Se 2. … h6-g5 3. b8-g3 h2:f4  4. d2-c1 ganhando.

3. b8-h2 g1-d4  4. d2-g5 h6:f4  5. h2:c3 com vitória.


O “tempo” no jogo de damas

julho 2, 2009

Há um conceito abstrato no jogo de damas chamado tempo e que consiste na capacidade de entrar em oposição à peça do adversário obstruindo-lhe os movimentos. Irônicamente, a pressa em fazer o lance faz-nos perder o “tempo” e às vezes até a partida.

Nos finais de partida é onde mais se exercita o controle do tempo. Vamos supor um final de partida onde restam duas peças pretas nas posições f8 e g7 e duas peças brancas nas posições e1 e f4. Jogam as brancas.

1. f4-e5  f8-e7

Depois da troca 1. … g7-f6  2. e5:g7 f8:h6 as pretas cairiam na oposição, perdendo a partida.

2. e1-d2! g7-h6
3. d2-c3!

Se houver o equívoco de se jogar 2. d2-e3? perde-se o tempo. A sequência seria 2. … h6-g5  3. e5-f6 e7-d6! fugindo pela diagonal a3-f8 sem perigo de oposição, com empate.

3. … e7-f6
4. e5:g7 h6:f8

5. c3-d4, com vitória.

O final acima foi publicado no livro Jóias do Jogo de Damas, de Waldemar Bakumenko sendo os comentários também de sua autoria.


Uma partida no sistema russo

junho 2, 2009
O nosso sistema de damas de 64 casas segue as regras internacionais para as damas de 100 casas e que difere do
sistema russo em dois pequenos ítens: primeiro – Na Rússia não existe a obrigatoriedade de se tomar o maior número
de peças. Assim, em 1. c3-b4 b6-c5  2. b2-c3 f6-g5 3. c3-d4 g5-h4  4. d4:b6, o russo prefere jogar 4. … a7:c5 e
não 4. … c7:c3. Já vi mais de um jogador perder uma partida em torneio por ter seguido uma partida vista em livros
russos. Lá, pelo meio da partida vem a troca decisiva, o russo faz a opção que lhe convém, aqui é obrigatório tomar
pela maior quantidade e a vaca vai pro brejo.
Pelas nossas regras é preciso que a peça pare na última linha para ser coroada dama. Se ela passa por essa linha
numa ação de múltiplas tomadas, continua como peça simples. Na Rússia há o que chamamos de dama voadora. Se a peça
vai à última linha numa ação de tomada ela já é coroada dama e pode capturar uma peça à distância em sua diagonal,
se for o caso.
A partida ora apresentada não tem valor técnico para nós já que nem os programas de computador aceitam reproduzir o
lance da dama voadora. Vale entretanto pela combinação que resultou no lance decisivo e pela curiosidade desse poder
de dama. O encontro deu-se entre o conceituado mestre Romanov, da Latvia, e o representante do Azerbaidjão,
candidato a mestre, Sharapov, jogando com as pretas. Fonte: Sharmati v SSSR (Xadrez na Rússia), março de 1960.
1. e3-d4 f6-g5  2. g3-h4 d6-c5  3. h4:f6 c5:e3  4. f2:d4 e7:g5
5. a3-b4 g5-h4  6. e1-f2 h6-g5  7. h2-g3 b6-a5
As pretas abrem mão do centro com vistas a fazer um cêrco mais à frente.
8. b4-c5 g7-h6  9. b2-a3 f8-e7  10. a3-b4 c7-b6?
Lance fraco, as pretas correm o risco de perder. Melhor seria 10. … cd6  11. de3 hg7  12. gf4 gf6!
11. d2-e3 d8-c7  12. g3-f4 c7-d6  13. c1-b2 b8-c7
Agora as brancas finalizam com uma refinada combinação.
14. f2-g3! h4:f2  15. f4-e5! d6:d2  16. c3:g3 a5:e5
17. g3-h4 b6:d4  18. h4:f2 e as pretas abandonam.
Os breves comentários entre os lances da partida são de autoria de Tsirik, que eu não tenho como saber se é o mesmo
Tsirik, autor do livro Finais de Damas (Shashki Endshipili).

O nosso sistema de damas de 64 casas segue as regras internacionais para as damas de 100 casas e que difere do sistema russo em dois pequenos ítens: primeiro – Na Rússia não existe a obrigatoriedade de se tomar o maior número de peças. Assim, em 1. c3-b4 b6-c5  2. b2-c3 f6-g5 3. c3-d4 g5-h4  4. d4:b6, o russo prefere jogar 4. … a7:c5 e não 4. … c7:c3. Já vi mais de um jogador perder uma partida em torneio por ter seguido uma partida vista em livros russos. Lá, pelo meio da partida vem a troca decisiva, o russo faz a opção que lhe convém, aqui é obrigatório tomar pela maior quantidade e a vaca vai pro brejo.

Pelas nossas regras é preciso que a peça pare na última linha para ser coroada dama. Se ela passa por essa linha numa ação de múltiplas tomadas, continua como peça simples. Na Rússia há o que chamamos de dama voadora. Se a peça vai à última linha numa ação de tomada ela já é coroada dama e pode capturar uma peça à distância em sua diagonal, se for o caso.

A partida ora apresentada não tem valor técnico para nós já que nem os programas de computador aceitam reproduzir o lance da dama voadora. Vale entretanto pela combinação que resultou no lance decisivo e pela curiosidade desse poder de dama. O encontro deu-se entre o conceituado mestre Romanov, da Latvia, e o representante do Azerbaidjão, candidato a mestre, Sharapov, jogando com as pretas.

Fonte: Sharmati v SSSR (Xadrez na Rússia), março de 1960.

1. e3-d4 f6-g5  2. g3-h4 d6-c5  3. h4:f6 c5:e3  4. f2:d4 e7:g5

5. a3-b4 g5-h4  6. e1-f2 h6-g5  7. h2-g3 b6-a5

As pretas abrem mão do centro com vistas a fazer um cerco mais à frente.

8. b4-c5 g7-h6  9. b2-a3 f8-e7  10. a3-b4 c7-b6?

Lance fraco, as pretas correm o risco de perder. Melhor seria 10. … cd6  11. de3 hg7  12. gf4 gf6!

11. d2-e3 d8-c7  12. g3-f4 c7-d6  13. c1-b2 b8-c7

Posição

Agora as brancas finalizam com uma refinada combinação

14. f2-g3! h4:f2  15. f4-e5! d6:d2  16. c3:g3 a5:e5

17. g3-h4 b6:d4  18. h4:f2 e as pretas abandonam.

Os breves comentários entre os lances da partida são de autoria de Tsirik, que eu não tenho como saber se é o mesmo Tsirik, autor do livro Finais de Damas (Shashki Endshipili).


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